quarta-feira, 7 de outubro de 2015

SECOVI: 'VAI FALTAR DINHEIRO PARA 

FINANCIAMENTO DA CASA PRÓPRIA'


O setor de construção civil já viveu dias melhores. E hoje sofre, muito, com a crise da economia brasileira.

Desemprego, excesso de oferta e preços em baixa. Não bastasse esse cenário, há a perspectiva de falta de crédito para o financiamento da casa própria.

Nesta entrevista ao portal da DINHEIRO, o atual presidente do Secovi-SP, o sindicato da habitação, Cláudio Bernardes, revela os problemas do setor.

De que maneira o setor da construção civil está se comportando com a crise econômica?

Estamos com uma dificuldade muito grande de viabilizar negócios e com queda nas vendas. A perspectiva de curto e médio prazo não é tão boa. O setor deve desempregar este ano 500 mil pessoas, o que é muito. Em 2014, foram outras 200 mil demissões, isto é, 700 mil demissões em dois anos. A âncora que se pode ter em uma economia fragilizada como a nossa é a manutenção do emprego e isto está em xeque.

O setor viveu há alguns anos uma espécie de bolha, não?

Não houve bolha imobiliária como se diz. O que existiu foi uma recuperação de preços entre 2010 e 2012, um aumento fruto do aquecimento da economia, uma situação de falta de condições para atender essa demanda. Naquela época tivemos uma situação de aumento de poder aquisitivo, taxa de juro mais baixas, inclusão social com ascensão de brasileiros no consumo. Lembro que houve momentos que não existiam equipamentos (para construções), engenheiros e imóveis para entregar.

E depois, o que ocorreu?

Houve uma estabilidade a partir de 2013. Em 2014 começou um ciclo mais difícil com Carnaval tardio, Copa do Mundo e eleições presidenciais.  Ao final do ano passado tínhamos alguns fundamentos econômicos ainda intactos, mas já não havia mais confiança tanto dos empresários quanto consumidores. Em 2015 esse processo acentuou, e se não houver uma mudança na economia, na política do País, vai ser difícil sair no curto prazo dessa crise.

E o que é preciso ser feito, objetivamente?

Precisamos diminuir muito o tamanho do estado. Não sairemos desta crise se não diminuirmos o peso do estado na economia. Obviamente temos uma crise política, de ética. E ambas precisam ser contornadas, sem contar a crise moral no País. Mas o primeiro passo é encolher o tamanho da máquina pública no Brasil.

Pelo seu diagnóstico, se nada for feito o cenário é de piora para a construção civil?

Não só para a construção civil, mas para toda a economia brasileira.

No caso do programa Minha Casa Minha Vida está previsto um corte em sua fase três. O quanto isto impacta para uma retomada do setor?

Hoje temos um grave problema em relação aos empreendimentos já em andamento do Minha Casa Minha Vida, que é o fato dos fornecedores não estarem recebendo. São atrasos de 60 a 90 dias no pagamento, o que está enforcando várias empresas. Quanto à fase três do Programa, o que ouvimos é que ocorrerão cortes. Mas sem dúvida é um trabalho social muito importante em relação à geração de empregos.

Em relação ao crédito, qual o cenário?

O crédito para o mercado imobiliário é um pouco diferente.  Tem uma vinculação diferente com a taxa de juro,  porque o financiamento para compra de casa própria é carimbado, vem de um funding (recursos) da caderneta de poupança. A taxa de juros na poupança é tabelada, e o problema não é tanto o juro neste momento.

Qual é o problema?

O problema é que cada vez mais temos saques na poupança, e os recursos para este funding estão acabando. Gente que está tirando dinheiro da caderneta para pagar suas contas, sair do vermelho.  A Caixa Econômica Federal já não tem mais dinheiro para este fim, Bradesco e Itaú ainda têm alguma coisa até o fim do ano. Mas se trata de um problema, porque mercado imobiliário sem crédito não funciona. A continuar nesta toada, talvez no fim do ano tenhamos dificuldade de ter crédito novamente.

E o câmbio?

A questão do câmbio tem conseqüências na ponta da produção, quando a construtora opera com muito material importado ou de componentes. Nesses casos, a crise cambial impacta muito fortemente essas empresas.

Como está o mercado hoje?  Há muitos produtos, descontos, boas barganhas?

O que acontece hoje no mercado é que temos um estoque alto na cidade de São Paulo, cerca de 28 mil unidades, isto é, unidades em produção e já prontas. Esse  estoque  é muito alto, o normal seria em torno de 17 mil unidades. Este desequilíbrio, uma oferta muito maior que a demanda, acaba afetando o preço dos imóveis. Essa demanda está reprimida por uma série de fatores: desemprego e falta de confiança no futuro. Isto tudo influencia para uma baixa de  preços.  Mas o curioso é que em São Paulo existe um movimento inverso também, de alta de preços, em função do Plano Diretor da Prefeitura.

De que forma o Plano Diretor puxa para cima os preços?

Há uma série de aspectos como o zoneamento prescrito, as chamadas outorgas onerosas, limitações de vagas de garagem e do tamanho da unidade, em determinados terrenos é preciso fazer doações de áreas. Tudo isso impacta diretamente no custo.

Mas há mais imóveis de baixa renda, média ou de luxo?

Há ofertas em todos esses segmentos.  E existe obviamente um estoque maior nos imóveis de dois dormitórios, em que há maior oferta. Este é produto carro-chefe do País, em função da distribuição etária que existe hoje.

Qual é a dica para quem quiser comprar um imóvel hoje?

Tem que procurar bastante. Há boas oportunidades no mercado, bons descontos. Quem tem dinheiro guardado tem uma condição de barganha muito maior.

Fonte: Isto É Dinheiro
Por Carlos Dias 

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