segunda-feira, 9 de março de 2015

Por Cid Augusto

PSICOGRAFIA

1990. Redação do jornal à meia-luz. Nenhum outro jornalista ao meio-dia.

O velho repórter baixa a cabeça repousando a fronte esquerda na mão esquerda espalmada. Na direita, o lápis, objeto que há muito não manuseava, treme com a ponta sobre o bloco de notas.

Por que não a Olivetti?

De repente, começam a cair, gota a gota, estas palavras subscritas por espírito qualquer atormentado na prisão de um corpo sem luz que não atende aos próprios anseios de eternidade.

Descreve a cena.

Cala.

O grafite, nervoso, atormenta os nervos da folha cuspindo grama, flores, coqueiros, uma casinha, pássaros, o rio, crianças em traços, tudo preto no branco.

Talvez seja tímido, afora anônimo, ou pense ser inútil dar novas aos vivos no lombo de um cavalo ateu.

“Diga que a amo...”, deixa escapar, sem, no entanto, estabelecer a destinatária do que parece ato falho na perfeição da arte de além e de aquém, onde, segundo dizem, as palavras são castiças e certeiras.

“... E que a vejo cá dos meus infernos...”, prossegue em letra tensa, repuxada com a característica das almas penadas que vagam por aí, bar em bar, na busca por iluminações poéticas nos olhos das putas.

Cala.

Retoma: “... Lembre-a daquele janeiro, quando se mostrou gótica numa imagem digital ainda por ser inventada...”.

O médium, mesmo sem obrigação, pensa. Tenta parar.

Quer saber que droga é essa, quem rompe seu agnosticismo e usa seus talentos secretos para mensagem tão descabida, mas é arrebatado numa prece decassilábica em versos brancos por outra face da entidade:

“... Deus a proteja e guarde de minha alma
Que vem das profundezas do meu corpo...”

“... Deus a proteja e guarde dos avanços
Dos meus olhos nas frestas do vestido...”

“... Deus a proteja e guarde da nudez
Da minha língua morta de desejo...”.

O lápis cai, a ponta quebra, a porta se abre sem ninguém entrar, sem humana interferência. Nem dos gatos na oficina.

Ventania no Vale do Silêncio? Não! Calafrios.

O indivíduo sai do transe, da viagem dantesca, e lhe ocorre a tentação de voltar a ser sujeito.  Enxerga, embora turvos, os garranchos atropelando as figuras desconexas e pergunta à parede incorporada de salitre o que diabos aconteceu para os tantos quantos de si pensarem em revolução.

Lixo.

Procura o exorcista, que o socorre numa das mesas do botequim imaginário da Praça do Seresteiro.

Mergulha noutro transe e psicografa poemas de Baco, sendo este o melhor de todos os seus eus.

Evoé!


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