terça-feira, 13 de janeiro de 2015

NORDESTE É A NOVA 

 FRONTEIRA ELÉTRICA


Depois de quase esgotar o seu potencial hidrelétrico na década de 90, o Nordeste ressurge como a grande sensação da energia alternativa. Até 2023, a geração de novas fontes renováveis – como eólica e solar – vai representar 60% da matriz elétrica da região. Juntas, as usinas vão somar 22 mil megawatts (MW) de potência instalada, mais que o dobro da atual capacidade hídrica do Nordeste (de 10,8 mil MW) e quase metade da geração alternativa prevista para o País, segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2023. 

 Melhor: quase sempre localizados em áreas pouco desenvolvidas, os empreendimentos trazem forte melhoria da renda da população local, que tem poucas opções de emprego. Nos últimos anos, com a construção dos primeiros parques eólicos, várias famílias passaram a contar, do dia para a noite, com uma renda generosa para os padrões da região. A maioria das empresas que está levantando torres gigantes no Nordeste optou pelo arrendamento das terras para construir as usinas eólicas. Cada uma adota uma fórmula diferente. Algumas pagam por torre instalada na terra. Outras pagam um porcentual da energia por gerador instalado. Dependendo do critério adotado, cada família pode ganhar R$ 1 mil por torre. 

No caso das eólicas, o potencial de melhoria para a população é grande. Além dos 192 parques instalados, com capacidade de 4.522 MW, a região tem outros 362 empreendimentos em construção, com capacidade para 9.292,9 MW, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). "Essa será a segunda fonte de energia do Brasil até 2021", diz a presidente da associação, Elbia Melo. 

Num primeiro momento, o impacto dos projetos é na aceleração da economia local, com a chegada de trabalhadores e novos estabelecimentos comerciais, como restaurantes e hotéis. 

No Rio Grande do Norte, Estado líder na geração de energia eólica no Brasil, o Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios que receberam os parques praticamente dobrou desde o início da construção. João Câmara teve crescimento de 90% no PIB entre 2008 e 2012; São Miguel do Gostoso, 86%; e Parazinho, 110%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O comerciante Djalma Lucas da Silva, morador de João Câmara desde 1986, conta que houve uma corrida pela abertura de novos negócios na cidade. Segundo ele, para abrigar os funcionários de construtoras e fabricantes de equipamentos foram construídos, pelo menos, 200 quartos de pousadas. "E, mesmo assim, muitas pessoas foram morar com parentes para alugar suas casas aos trabalhadores". 

Nesse movimento, o preço do aluguel de uma casa de três quartos saltou de R$ 300 para R$ 2,5 mil. Como os demais moradores, Silva também expandiu os negócios. Fabricante de sorvetes caseiros, ele comprou 50 freezers e inaugurou novos pontos de venda na região, além de contratar cinco funcionários. "Antes dos parques, basicamente, a renda da população vinha do funcionalismo público. Hoje está mais diversificado", afirma o sorveteiro, que torce por novos projetos.


 
Rodovias

Outro benefício da chegada dos parques eólicos na região foram os avanços na infraestrutura rodoviária. Algumas estradas foram asfaltadas pelas empresas responsáveis pelos projetos. Outras continuam de terra, mas em condições bem melhores que as do passado, como a ligação entre Parazinho e São Miguel do Gostoso – um município turístico que virou cidade dormitório de engenheiros e executivos de grandes empresas, como CPFL, Acciona, Energisa e Voltalia. 

Segundo André Dorf, presidente da CPFL Renováveis, líder na produção de energia eólica no Brasil, apenas uma fração do potencial do Rio Grande do Norte foi explorado. "Ainda há muito por fazer." Hoje, o Estado tem 73 parques eólicos construídos, com capacidade para produzir 2.062 MW. Nos próximos anos, devem entrar em operação outros 93 parques, de 2.430 MW, segundo a Abeeólica. 

O caso do Rio Grande do Norte é replicado para os demais Estados do Nordeste, que brigam entre si pela liderança de maior produtor do País. Entre projetos instalados e em construção, a Bahia será a segunda colocada no ranking nacional, com 166 parques e uma capacidade instalada 4.159 MW. Lá, boa parte dos parques eólicos é da Renova, segunda empresa no ranking nacional.

Os empreendimentos da companhia estão (ou serão) construídos nos municípios de Caetité, Guanambi e Igaporã, no semiárido baiano. A exemplo dos municípios potiguares, os projetos provocaram uma revolução na região. A Renova optou por arrendar as áreas e pagar um valor mensal aos proprietários, que continuam usando a terra para outras finalidades, como o cultivo e a criação de animais. O PIB local cresceu até 65%, como foi o caso de Igaporã. "São regiões com potencial econômico muito baixo. Qualquer tipo de desenvolvimento é positivo", diz o presidente da Renova, Mathias Becker. 

Usinas solares

Segundo ele, além da força do vento, o Nordeste também começa a despontar na energia solar. No primeiro leilão, que incluiu a fonte alternativa, a região recebeu quase 60% dos 889 MW negociados no certame. A Bahia foi o Estado com maior número de projetos, que somam 399 MW. Mas, ao contrário da eólica, a usina solar normalmente requer a compra de terras, já que todo o espaço é usado para a instalação dos painéis.

"Nós sabíamos do potencial solar na Bahia (na mesma região das eólicas). Só não sabíamos que tipo de usina (ou tecnologia) seria mais adequada", diz Becker, que iniciou os estudos na região há dois anos. A CPFL também aposta na energia solar no Nordeste. A empresa inscreveu 550 MW no leilão, mas não vendeu nada por causa do preço. De qualquer forma, os projetos estão na carteira da companhia à espera de oportunidade num próximo leilão. 

Outro efeito multiplicador é a formação de uma cadeia produtiva forte, como em outros países. Apesar de o governo ter realizado apenas o primeiro leilão, já há empresas estrangeiras interessadas em construir fábricas de componentes para as usinas solares, afirma o diretor executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia. 

Segundo ele, a instalação dessas unidades vai ocorrer nos locais que representarem maior vantagem competitiva para as companhias. Mas, independentemente de onde estarão instaladas, o destino de boa parte de suas peças será o Nordeste. Até 2023, a grande fronteira da energia alternativa vai produzir 52% de toda energia renovável (excluindo as hidrelétricas) do País.
Fonte: Estadão
Por Ranée Pereira 

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